sábado, 17 de agosto de 2013

1- Uma noite de inverno...

O vento cortante, típico do inverno, uivava sobre a gélida paisagem branca. Após horas de caminhada eu estava exausto. Minha cabeça latejava e meus membros tremiam tanto quanto os galhos dos pinheiros sobre a montanha.
Dei mais alguns passos com a neve pelos joelhos e avistei uma caverna. Metade de mim queria seguir a caminhada na esperança de encontrá-lo antes do amanhecer, mas a outra metade dizia que nesse ritmo eu não estaria vivo ao amanhecer... Por fim, cedi aos apelos de meus membros em espasmos e me recolhi na caverna. Mais tarde, quando minhas pernas pararam de tremer, busquei alguns galhos que caíram dos pinheiros sobre a montanha e os arrumei no chão, unindo todos em uma roda. Fechei os olhos e me concentrei. Quando os abri novamente lindas chamas alaranjadas espalharam-se, vindas do meu olho esquerdo, para os galhos, formando uma fogueira aconchegante à minha frente.
Puxei um pouco da neve da rua para criar um pequeno muro na entrada da caverna.Isso não vai segurar um urso... Mas vai me dar tempo pra queimá-lo vivo pelo menospensei. Por fim arrumei um travesseiro de neve perto do fundo da caverna e mergulhei nos sonhos.
Acordei num sobressalto com um estrondo ainda ecoando na caverna. Levantei e pulei rapidamente o pequeno muro de neve. Olhei para o topo da montanha e, a princípio, não vi nada, mas depois de forçar os olhos eu enxerguei... Se Maomé não vai à montanha, a montanha vem à Maomé pensei. Minha busca acabara.
–Eu estou aqui! – gritei.
O rosto de expressão dura e uniforme me olhou sem um pingo de surpresa e então... sumiu. Todos sumiram. Antes que eu pudesse questionar lá estava ele com sua cavalaria atrás de mim. Ficamos nos encarando por um minuto e ele quebrou o silêncio.
–Fiquei sabendo que está procurando por mim. Eu estava justamente pensando em você. Estou reunindo um pequeno grupo para um objetivo especial.
–Não estou interessado em nada que não envolva sua morte. – falei rispidamente.
–Eu não estou te convidando. Muito menos pedindo sua permissão. – gritou ele em tom forte.
Fechei os olhos e avancei, ganhando velocidade a cada passo, em sua direção. Abri os olhos novamente e direcionei as chamas para os seus olhos que brilharam e repeliram-nas, lançando as chamas na neve. Uma densa cortina de fumaça se ergueu entre nós dois e eu fiquei paralisado, processando os últimos acontecimentos. Antes que pudesse entender tudo ouvi um passo e lá estava o seu rosto, de olhos bem abertos fitando os meus. Nesse instante uma dor percorreu todo o meu corpo e eu desabei no chão.
–Ah!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

2- A Tempestade

30 anos depois...
Acordei com uma voz familiar me chamando.
–Senhor Zero. Precisamos nos apressar. Acabei de ouvir da boca de um fazendeiro que uma tempestade fortíssima está vindo para a cidade!
–E como ele sabe disso? – perguntei sonolento – Ah, deve ser um Cursers do clima. Eles são bem úteis...
–Senhor Zero, são pessoas. Não podemos falar delas como objetos! – gritou o jovem.
Levantei-me e abri bem meu olho esquerdo.
–Você acha que isso é o que? Um enfeite? É uma porcaria de um Damn Eye, Steve! Você acha que essa coisa tem sentimentos? Foi feito pra ser usado e não para admirar! – retruquei.
–Está bem, está bem. O Curser aqui é o senhor... – falou Steve.
Eu ri levemente e então sacudi a cabeça.
–Você não muda meu caro amigo. – falei – Agora, me diga, o que sabe sobre essa tempestade?
–Bem... – falou Steve com a mão no cabelo – O fazendeiro disse que ela já passou por mais 3 cidades antes dessa e que causou muita destruição nelas.
–3 cidades antes dessa hein... – falei – Steve, por acaso não foram as cidades por onde passamos?
Ele pensou por um minuto e então seus olhos se arregalaram.
–Caramba! Foram sim. – disse ele – Litus, Armani e Dragórgia!
–Ok. Isso significa que estão atrás de mim. – falei.
–De nós, Sr. Zero. – disse Steve.
–Não, não. Você apenas está comigo. O procurado sou eu. – falei.
Ele assentiu relutante, e saímos do quarto. Pagamos a estadia e Steve me perguntou aonde íamos.
–Para a entrada da cidade. Se quiser ficar, sinta-se a vontade. Pode ser perigoso. Essas pessoas, que me... nos perseguem, são Spark Cursers e Wind Cursers. Controlam os raios e o vento. Por isso a tempestade. – falei.
Ele pensou por um minuto e então me seguiu.
–Senhor Zero, quantos acha que são? – perguntou Steve.
–Não sei. Talvez uns cinco, pelo grau da destruição que causaram.
Seguimos o caminho todo em silêncio. As pessoas corriam de um lado a outro para fechar suas tendas, tirar sua roupa do varal e se esconder nos porões. A tempestade poderia destruir por completo uma cidade pequena como aquela. Felizmente, se eu saísse dali e levasse os Cursers comigo para longe, o vilarejo estaria fora de perigo.
–Senhor Zero. – chamou Steve.
–Sim?
–Como aquilo aconteceu? – perguntou ele.
Eu sabia do que ele estava falando.
–Se sobrevivermos a isso eu prometo te contar. – retruquei.
–Então trate de não morrer. – respondeu.
Rimos. A alegria acabou quando avistamos a nuvem negra que chegava ao portão. Paramos do lado de fora dele.
–Eu estou aqui – gritei – Sei que me querem. Não façamos dessa cidade nosso campo de batalha pessoal. Vamos para os campos, lá poderemos lutar sem perturbar a paz.
–Senhor... – disse Steve com a mão em meu ombro.
Assenti.
–Não se preocupe. – falei – Vai ficar tudo bem.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

3- O Olho do furacão

A nuvem mudou subitamente de direção, rumando aos verdes prados à direita. Segui até lá, correndo com Steve em meu encalço. No meio do caminho parei-o e pedi que ficasse ali.
–É perigoso vir comigo. – falei quando ele insistiu.
–Mas...
–Sem “mas.” – falei – Você fica. Quando tudo isso terminar começaremos o seu treinamento.
Dei um tapinha no seu ombro e saí correndo em direção à nuvem que agora estava parada sobre uma colina. Toquei o cabo de minha espada. Quente. Ela está pronta. Há mais ou menos trinta metros do local a nuvem começou a descer e logo o grupo apareceu. Estremeci com a quantidade. Pelo menos quinze. Puxei a espada e logo esta brilhava tanto quanto meu olho esquerdo. Um brilho vermelho-sangue que fazia a lâmina pulsar como se estivesse viva. Cada movimento seu deixava um rastro de pequenos pontos brilhosos da mesma cor do brilho.
Alguns homens empunhavam espadas e lanças, provavelmente Wind Cursers, enquanto uns três brandiam poderosas clavas acima do peito, possivelmente os Spark Cursers. Rapidamente avaliei-os e decidi que daria prioridade aos Wind Cursers. Há uns dez metros de mim eles começaram a correr em minha direção. Saltei e voltei a cair atrás deles. Virei-me e estendi a espada em sua direção. Esta liberou uma onda de choque por todo o meu corpo que se incendiou nesse instante. Rugi, mais alto que os trovões que saiam das clavas dos Spark Cursers, e pus-me a atacá-los um a um. Segurei pelo pescoço um dos Wind Cursers mais próximos e quando este se tornou uma bola incandescente atirei-o contra outros dois que tiveram o mesmo fim. Menos três pensei. Quando ergui o olhar uma lança vinha em minha direção. Concentrei-me e levantei a mão, estendendo-a de lado para o objeto que se partiu ao tocá-la. Avancei velozmente e deferi um golpe contra um dos usuários de espada. Minha arma acertou verticalmente a sua que estava em posição horizontal. A batida produziu um barulho metálico que logo em seguida foi seguido por muitos outros. Senti quando um usuário de espada se aproximava por trás e pulei, passando por cima do inimigo à minha frente e depois o imobilizando. A espada do outro inimigo ficou enterrada verticalmente no crânio dele. Empurrei seu corpo contra seu assassino que cambaleou. Aproveitei a chance e arranquei-lhe a cabeça com um golpe veloz de minha lâmina. Um raio passou há centímetros de minha cabeça o que me deixou alerta. Um Spark Curser a meu lado erguia sua clava pronta para me esmagar. Rolei para o lado e saltei no exato momento em que a arma atingia o chão e disparava uma descarga elétrica pelo solo que matou pelo menos cinco Wind Cursers que estavam ajoelhados.
Olhei a meu redor. Três Spark e dois Wind Cursers. Avancei contra o Spark que matou seus companheiros e senti meus pés saírem do chão. Uma rajada forte de vento atirou-me há dez metros dali.
–Nem pense em fugir. – disse o autor do golpe.
Eu ri.
–Seria melhor pra você se eu fugisse agora e te poupasse. – falei com sarcasmo.
Ele fechou a cara. Ergueu a mão e eu fui imobilizado no ar.
–O que dizia? – perguntou.
–Você conhece as propriedades do fogo? – perguntei.
Ele ficou me olhando, curioso.
–Geralmente quando queremos aumentar uma fogueira sacudimos algo plano por perto. Você sabe por quê? – perguntei.
Ele sacudiu a cabeça negativamente.
–Bem, é porque... – fechei os olhos – O fogo consome o ar para se manter! – gritei e abri os olhos.
As chamas traçaram o caminho de meu corpo aos seus olhos. O Curser caiu, gritando xingamentos em minha direção, enquanto eu descia em um redemoinho de fogo. Um Spark Curser apontou a clava para mim e antes que pudesse fazer algo ergui uma parede de fogo de dois metros ao seu redor.
–Não esquenta. – brinquei.
O outro Wind Curser sacou a espada que logo se tornou um furacão em miniatura.
–Você é lerdo? – falei – Não entendeu mesmo! Devia ter prestado atenção quando expliquei.
Ele pareceu perceber só então, mas já era tarde. Uma fina linha de fogo foi de meus olhos à sua espada e logo esta estava em chamas. Estas se espalharam e o queimaram por completo.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

4- A Serpente

Imediatamente os três Spark Cursers ergueram suas clavas e poderosas bolas de raios partiram em minha direção. Saltei e rolei no ar para desviar delas. Quando pus os pés no chão novamente comecei a correr em sua direção. Espada em punho, coragem armada e corpo pronto. Há dez passos deles caí. Minha visão ficou turva e me senti tonto. Imediatamente eu soube que estava acontecendo. Aquilo despertou. Olhei minhas mãos. Elas estavam envoltas em uma aura roxa. Levantei com cuidado e senti que algo puxava minha mão na direção dos Spark Cursers. Ergui o braço e um buraco negro começou a consumir tudo na direção deles. O chão se desintegrava em matéria negra e o ar se distorcia e metamorfoseava em diversas cores.
–Santo deus! Então é verdade! – gritou um dos adversários – Ele é mesmo um dos amaldiçoados de Fukon!
Os outros dois assentiram, pasmos, antes do buraco negro os consumir. Tudo que restou foi uma cratera gigante no local onde eles estavam antes. A terra, ressecada, se desfazia ao mais delicado toque. Era como se aquilo sugasse a vida das coisas.
–Senhor Zero, senhor Zero! O que foi aquilo? O senhor está bem? – gritou Steve enquanto corria na minha direção.
Acenei, indicando que estava tudo bem.
–Gostou do show? – brinquei.
–Não brinque com isso Senhor Zero! – disse ele – O que foi aquilo?
Pensei um minuto. Eu prometi pra ele que contaria tudo se sobrevivêssemos. Decidi.
–Está na hora de você saber um pouco mais sobre a minha maldição. – falei.
–Jura? – perguntou ele, radiante – Sinto-me honrado em saber que o senhor confia em mim a tal ponto!
Avaliei-o. Ele estava pronto, mas não para tudo. Decidi contar-lhe apenas os fatos principais, mas deixar alguns detalhes importantes de fora.
–O homem que me amaldiçoou se chama Fukon... – hesitei – Fukon... Gayatta.
Ele ficou boquiaberto.
–Senhor Zero... Ele é...?
–Sim. Meu pai. Fukon Gayatta. – falei.
Esperei um momento antes de recomeçar.
–A Maldição da Serpente. É assim que é chamada. – falei – Ela permite que o usuário multiplique por 10 todos os seus atributos. Mas em troca, consome a vida das coisas ao seu redor. Vê aquela cratera? – apontei – Foi feita pela maldição. Ela desintegrou tudo ao meu redor e sugou a vida do que restou por perto.
–Mas, isso não tem importância, tem? – disse Steve – É apenas terra...
–Não é só isso. – falei – Os detalhes você ainda não está pronto para ouvir.
Ele fitou-me confuso. Eu menti para ele sobre contar tudo...
–Senhor Zero. O Senhor fez uma promessa. Zero Gayatta sempre cumpre suas promessas! – disse ele.
Olhei seu rosto. A face de alguém maduro. Cabelos negros curtos e olhos castanhos. Feições jovens mas sábias. Roupas velhas mas modestas.
–Lamento Steve. Dessa vez terei de voltar atrás com minha promessa. Foi mal-pensada. – falei.
Ele deu de ombros. Virou-se com os olhos marejados e saiu andando. Uns passos adiante pôs a mão no bolso da calça e tirou um papel que jogou no chão. Aproximei-me do papel enquanto ele se afastava. Era a foto que tiramos no dia em que nos conhecemos. Quando encontrei Steve ele morava nas ruas. Dizia que sonhava em conhecer o mundo. Ofereci-lhe minha companhia e ele aceitou prontamente. Desde então partimos mundo afora em busca da cura para essa maldição.
Olhei para frente. Ele já estava bem longe. Provavelmente nunca mais iria querer me ver. Decidi que não havia chance de me redimir, portanto o melhor a fazer era deixá-lo. Doía muito abandoná-lo à sua própria sorte. Resolvi que iria pelo menos lhe deixar algo. Abri minha bolsa de moedas e retirei 5 moedas de ouro, o que daria para ele sobreviver por pelo menos meio ano naquela cidade. Deixei com um mensageiro ao qual descrevi Steve e pedi que lhe entregasse o dinheiro. Junto com as moedas deixei um bilhete me despedindo e dizendo que se um dia quisesse me encontrar de novo eu estaria a sua espera.
Segui a passos lentos pela estrada empoeirada que levava à saída Sul da cidade. Parei por um momento no portão e me virei. Lágrimas correram de meus olhos. Adeus Steve.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

5- A cidade misteriosa

A caminho de Durville, a próxima cidade no mapa, me vi em um cruzamento de estradas.
–Esquerda ou direita? – perguntei a mim mesmo.
Ponderei por um minuto e resolvi escolher aleatoriamente. Escolhi um numero e comecei a contá-lo apontando cada vez para uma das estradas.
–1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9. – contei – Esquerda.
Ajeitei o sobretudo preto e segui rumo à estrada da esquerda. Uns dez minutos de caminhada se passaram naquela estrada quando percebi que o lugar era um tanto quanto silencioso e solitário.
Finalmente, após uma hora de caminhada intensa por estradas esburacadas, cheguei a uma velha cidade que em nada se parecia com a Durville que eu esperava. Era um lugarzinho morto e cheio de poeira, quase como uma cidade fantasma. Não vi sequer um ser humano em suas ruas mal-traçadas portanto resolvi bater à porta de alguém para ver se descobria onde estava. Escolhi, aleatoriamente, um casebre de madeira com teto de palha mal-amarrada e bati na porta. Uma mulher magra e pálida abriu uma pequena fresta da porta e quando identificou meu rosto puxou-me para dentro e trancou a porta.
–O que você... – comecei.
–Shhh! – sussurrou ela – Ele pode te ouvir!
Quando meus olhos se acostumaram ao ambiente escuro percebi mais duas pessoas, um homem por volta de sessenta anos e uma menininha de uns treze.
–Ele quem? – perguntei intrigado.
–É um monstro terrível, meu caro viajante. – disse a mulher – Ninguém sai mais às ruas com medo dele.
–Senhora. – comecei em tom baixo – Deixe que eu me apresente. Sou Zero Gayatta, um Fire Curser. Talvez eu possa dar um fim a essa criatura para vocês. Conte-me como ela é. Tem nome?
Ela ponderou por um minuto, olhou para o homem de idade que presumi ser seu pai e, quando este assentiu, começou:
–O nome da criatura é Golem. Foi criado por um padre da comunidade com o intuito de proteger nossa pequena e frágil vila. – ela parou por um minuto – O monstro mudou de lado e agora nos aterroriza. É a criatura mais horrorosa que já existiu. É inteiramente feito de argila. Muitos já o feriram, mas ele se recompõe com a própria argila. Tememos por nosso futuro nobre guerreiro. Se tudo continuar assim morreremos de fome em nossos refúgios.
Meu coração deu um pulo no peito. Um monstro feito e argila e que se regenera?
–Onde posso encontrar esse tal padre?
O homem velho moveu a cabeça negativamente.
–O monstro o matou. – disse ele.
Congelei em meu lugar. Onde eu havia me metido? Essa cidade não está nem mesmo nos mapas. Mesmo assim eu não podia deixar aquelas pessoas desprotegidas...
–Onde vive a criatura? – falei.
–Ele vive na igreja do falecido padre. – disse a mulher.
–Mostrem-me onde é. – comecei – Eu matarei o Golem.
A mulher estudou-me por um minuto e então assentiu.
–Siga até o fim dessa rua e dobre à direita. – disse ela – Duas quadras adiante você verá a igreja em uma esquina à esquerda.
Assenti, agradecido. Antes de sair ela me dirigiu a palavra mais uma vez.
–Cuidado nobre guerreiro. Muitos dos seus já tentaram matar o Golem, mas todos tiveram o mesmo fim.
Estremeci, mas não podia deixar aquilo evidente.
–Já matei muitos demônios na face da terra. – falei – Esse será apenas mais um.
–Se engana senhor. – disse ela – Esse monstro não é parecido com nada que tenha enfrentado. É praticamente imortal.
Resolvi sair dali antes que ela desce asas ao monstro. Sorri e acenei antes de sair pela porta mal-cortada. Estava frio do lado de fora e uma neblina formava-se no ambiente enquanto o sol ia se começando a se por. Sem mais demoras pus-me a correr pelas ruas poeirentas da pequena cidade. Ao longo do caminho vi de relance pessoas espiando por entre as venezianas. Vi também o que pensei ser uma sombra de dois metros passar por um beco ao meu lado.
Quando finalmente cheguei à porta dupla e bem entalhada da igreja empurrei-a e analisei o ambiente. Certamente não havia ninguém cuidando daquele lugar. O eco era alto ali dentro e a escuridão era total. Fui até o altar, tateando para encontrá-lo, e agarrei um candelabro. Usei meu Fire Curse para acender suas sete velas dispostas simetricamente.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

6- Golem, O Destruidor

Quando tudo estava iluminado olhei para trás do altar e deixei o candelabro cair de susto. Uma criatura de pelo menos dois metros e meio estava prostrada de pé ali. Ela era inteiramente feita de um material amarelo-rosado. Argila pensei. Seus olhos eram tão ou mais vermelhos que meu Damn Eye. Havia uma coisa escrita em sua testa e ela bufava como um touro. Forcei rapidamente meus olhos e consegui distinguir a palavra em sua cabeça. Era uma escrita estranha que eu não entendia. Eram três letras juntas no meio da testa. Sem hesitar, puxei minha espada e golpeei-o rapidamente no braço direito, decepando-o. O monstro esperou um instante e então rugiu. Um som que fez todo o chão tremer. Ele esticou as mãos violentamente e me acertou, atirando-me em direção à porta aberta da igreja. Rolei na estrada de terra e me segurei na parede de uma casa de dois andares.
Enquanto limpava o sangue da boca o monstro começou a correr em minha direção, feroz como um leão. Estiquei a espada e um grosso fio de fogo irradiou em sua direção. No meio da fumaça o chão parou de tremer. Presumi que ele havia parado de correr. Mateipensei.
Logo retirei minhas suspeitas quando a criatura saiu do meio da fumaça inteiramente recomposta e destruiu a parede da casa de onde eu consegui fugir por um milésimo de segundo. Cortei sua cabeça e seu corpo se desfez, juntando-se depois a cabeça decepada. Ele esperou um minuto até estar totalmente recomposto e ergueu o punho cerrado. Bateu no chão com toda sua força e eu fui atirado ao telhado da casa às minhas costas. Uma cratera abriu-se no chão bem onde ele acertou.
O monstro me olhou com ódio no rosto e jogou-se contra a parede da casa que rapidamente cedeu e começou a desmoronar. Invoquei meu Fire Curse e incendiei meu corpo. Desci do telhado rapidamente num turbilhão de chamas. Quando ele se aproximou expandi o fogo em meu corpo e criei uma proteção de fogo a dois metros de distância de mim. Ele batia nas chamas que queimavam suas mãos, e estas por sua vez se recompunham novamente. Comecei a suar de preocupação quando ele conseguiu abrir uma brecha em minhas chamas.
Em um minuto eu estava fora de seu alcance e em outro ele golpeou-me violentamente e fui jogado contra uma janela da igreja. O vidro estilhaçou-se e rolei umas duas vezes antes de bater no altar. Logo notei que havia deixado minha espada cair ao lado da janela. Não tive tempo para pensar, pois o monstro invadiu a igreja e atirou uma das portas contra mim. Abaixei-me rapidamente e o objeto destruiu todas as imagens de gesso atrás do altar. Uma ideia veio à minha cabeça e juntei o candelabro que havia deixado cair ali antes. Coloquei-o sobre o altar e acendi todas as sete velas novamente. A criatura arrancara a outra porta e corria com ela na mão quando rolei e passei por baixo de suas pernas. Agarrei a espada ao lado da janela e rugi tão forte quanto um leão. As chamas do candelabro expandiram-se e tomaram conta da criatura que se debatia como um peixe fora d’água.

domingo, 11 de agosto de 2013

7- Cidade Fantasma

Meu coração parou quando a janela em mosaico atrás do altar se partiu e minhas chamas ficaram azuis. Forcei os olhos e identifiquei uma silhueta de capuz sobre a janela. Antes que eu pudesse perguntar quem era ou o que queria ali meu corpo ficou imóvel. Vi minhas chamas se extinguirem aos poucos enquanto tudo ia ficando turvo em minha visão. De repente, sem aviso, caí e desmaiei.
Acordei com uma forte dor na nuca e senti que algo estava fora do lugar. Virei-me e levei um imenso susto quando percebi que algo destruíra a parede às minhas costas. Uma cratera fumegante ocupava o lugar. Ao olhar o solo mais de perto tudo fez sentido. A Maldição. Perdi a consciência e a serpente tomou o controle do meu corpo. Mas algo ainda estava fora de nexo ali. A sombra na janela. Virei-me para lá e o vidro, antes quebrado, estava inteiro novamente. O Golem estava caído ao lado do altar. Andei cambaleante até lá e ele não se mexeu. Desconfiado, bati com a espada em sua cara. Logo notei. Faltava uma letra na estranha palavra em sua testa.
–Algum tipo de feitiço? – comentei sozinho – Não pode ser um Curser certamente. A menos que...
Enterrei as mãos na argila mole e em seu centro, antes do mesmo material, encontrava-se um corpo humano. Santo deus. É uma mulher! O pânico tomou conta de mim. Aquilo me perturbou imensamente. Saí correndo sem rumo até me lembrar das pessoas com quem conversara antes de enfrentar a criatura. Tomei o caminho de sua casa e bati desesperado na porta. Ninguém abriu.
–Sou eu. – gritei – O Zero. Abram. Eu matei o Golem.
Sem resposta. Bati muitas outras vezes até me cansar e por fim derrubar a porta. Novamente fui tomado pelo pânico. A mulher, o idoso e a criança estavam caídos no chão. Todos com profundos cortes na garganta. Virei-me e corri desesperado.
A noite escurecia cada vez mais e mais e as sombras pareciam dançar na assustadora floresta. Voltei até Trivil em duas horas.
–Por favor. Eu estou procurando uma pessoa. Seu nome é Steve. – falei ao guarda do portão principal.
Descrevi-o para o guarda que logo foi perguntar aos seus colegas. Já estava perdendo as esperanças quando finalmente um deles lembrou-se.
–Ah sim. – disse o guarda – Eu o vi sair dos prados e entrar pelo portão norte. Parecia enfurecido. Perguntei se precisava de algo e ele me disse que ia apenas descansar.
Congelei por dentro. Então Steve nunca pensou em me abandonar. Foi apenas um momento de fúria...
–Isso... – comecei – Onde eu posso encontrá-lo?
–Aqui. – gritou uma voz familiar atrás de mim.
Steve vinha andando de seu jeito desleixado. Passou pelo portão e sorriu. Quando tentei abraçá-lo ele me deu um soco forte no rosto. Os guardas arquejaram surpresos.
–Nunca mais pense em partir sem mim Sr. Zero! – gritou ele rindo.
Enfureci-me por um momento e então me deixei cair na gargalhada. Os guardas, agora mais calmos, riam junto.
–Você bate bem. – falei – Talvez devêssemos adiar o treinamento.
Ele riu.
–Sempre há o que se aprender.
–Bem. – comecei – Vamos descansar esta noite e na manhã seguinte partimos para Durville. Felizmente eu já sei caminho correto...
Um dos guardas me olhou, curioso.
–Como assim “o caminho correto”? – perguntou ele – É só seguir por essa estrada.
–Ah, mas há uma bifurcação não mapeada na rota. – respondi.
Seus olhares ficaram ainda mais curiosos.
–Não senhor. – disse um dos guardas – Ainda ontem fiz uma entrega em Durville e não havia nenhuma bifurcação. Só há essa estrada para lá.

sábado, 10 de agosto de 2013

8- Uma nova aventura: Os Cavaleiros Elementares

Lentamente meu braço direito foi erguendo-se e Steve teve de me soltar, pois a atmosfera ao meu redor começava a mudar. O policial franziu a testa, ainda desconfiado. Foi então que eu senti minha garganta vibrar e a maldição começou a falar. Isso jamais havia acontecido. Até onde chega o controle da Serpente?
-Afastem-se se prezam por suas vidas. – falei inconscientemente, em um tom grave e rouco – Este é meu último aviso.
As pessoas olhavam incrédulas. Uma esfera negra formou-se na minha mão direita que estava apontada para o policial, e todos começaram a correr desenfreados para longe dali. Meu braço sacudia em espasmos. O policial levou a mão à cintura para sacar a espada. Eu tentava gritar para que parasse, mas minha voz não saía. Novamente a Serpente começou a falar com sua voz grave e rouca.
-Eu avisei. Mea est anima tua.
O que é isso? , pensei. Ao que parece era latim, um idioma que eu não sei falar. Ao fim da frase, a esfera em minha mão brilhou com intensidade e o policial começou a se desintegrar e tornar-se uma espécie de fumaça que voou para minha mão. A esfera absorveu a fumaça e começou a diminuir. À medida que ela sumia minhas forças voltavam.
-Senhor Zero! – gritou Steve.
Caí de joelhos e fiquei olhando minha mão por um bom tempo. Esse era o auge da maldição ou qualquer dia a Serpente ia tomar meu corpo por completo? Eu precisava de respostas. Só uma pessoa podia me responder.
-Vamos atrás de Fukon. – falei para Steve quando este se aproximou.
-Mas nós já estamos atrás dele, não?
-Sim. – respondi – Mas vamos achá-lo hoje.
Steve parou por um instante. Andou até a minha frente e estendeu a mão para me ajudar a levantar.
-Amanhã Senhor Zero. – disse ele – É quase meia-noite.
Lentamente as pessoas começaram a voltar para suas casas. Outros policiais chegavam para nos interrogar.
-Onde está o oficial Sheng? – perguntou um homem alto.
O policial ficou me olhando esperando resposta. Olhei para Steve e acenei positivamente. Em resposta ele fez o mesmo e saímos correndo pelo portão da cidade. Os policiais gritavam e tentavam correr atrás, mas éramos mais rápidos. Depois de correr por quinze minutos e andar por mais quinze, paramos perto de uma grande figueira e encostamo-nos a uma raiz grande. Rimos até doer a barriga. Foi quando me lembrei da cena. Meu olhar se contorceu em uma expressão preocupada. Steve logo notou e me indagou sobre o que estava acontecendo.
-Você viu? – perguntei – Como o policial morreu...
Ele assentiu sério.
-Foi a maldição, não foi?
Assenti. Fez-se silencio por um momento e então acrescentei:
-Dessa vez foi diferente...
Detive-me. Um som nos arbustos à beira da estrada chamou nossa atenção. Olhei para Steve que assentiu em concordância e saquei a espada. A longa e afiada lâmina reluziu à luz da lua. Dei dois passos e novamente algo se moveu no mesmo lugar. Esperei um momento e quando pensei em dar outro passo, partículas de terra levantaram do arbusto e foram juntando-se até formar uma pessoa. Consegui distinguir um cavalo abaixo dela. Mais um pouco e identifiquei uma armadura em seu corpo. Um cavaleiro. De terra? Um Earth Curser quem sabe...
-Quem é você e por que estava escondido aí? – perguntei.
Steve levantou, num pulo assustado, da raiz.
-Senhor Zero! – gritou ele – Saia já daí. Ele não é nenhum Earth Curser.
O cavaleiro continuava me observando, imóvel. Ele ergueu a mão esquerda e apontou em minha direção.
-Zero... – começou ele com dificuldade – Gayatta.
Estremeci. Certamente não era um admirador. Lembrei-me do aviso de Steve. Rolei para o lado e saí correndo na direção do cavaleiro. Mal dei um passo e bati contra uma rocha que ergueu-se à minha frente do nada. Caí e saltei duas vezes para trás. Encostei-me ao lado de Steve na árvore. O cavaleiro continuava apontado para mim.
-Lutar... – começou com a mesma dificuldade de antes – Não. Cedo.
-O que veio fazer então? – perguntei.
Steve estava grudado à árvore como se alguém fosse levá-lo.
-Mensagem. – disse o cavaleiro – Oeste, 4 esperar Zero. Lutar em portal. Vencer, levar cura. Perder, ficar portal.
Assenti. Steve estava ainda mais branco que o normal. O cavaleiro esperou um segundo e se desfez em partículas de terra novamente. Estas por sua vez voaram pelos céus.
-Você parece conhecê-lo Steve. – comentei.
Ele se deixou cair sentado na grama macia. Fiz o mesmo. Steve suspirou e começou:
-É uma antiga lenda. Sobre os Cavaleiros Elementares. Quatro guerreiros que deram origem aos quatro tipos básicos de Cursers.
-E aquele devia representar os Earth Cursers, certo? – perguntei.
-Sim.
-Sabe do que ele falava, sobre um tal portal à oeste?
-Mais ou menos. – disse Steve – Havia uma passagem da lenda que falava sobre o portal do destino. Parece que ele contém os 4 guerreiros. Havia mais alguma coisa indecifrada ainda.
-Então ele estava me chamando para lutar com eles? – perguntei incrédulo – Mas eles não deveriam estar contidos no portal?
Steve deu de ombros. Pensei por um minuto.

-Tem medo de fogo? – perguntei – E de cavalos?